Aprenda neste artigo sobre Pesquisa-Ação de forma clara e rápida o que é este tipo de pesquisa, como pode ser aplicada, em quais contextos e o que caracteriza esse tipo de investigação! Também abordaremos a diferença entre Pesquisa-Ação (PA) e Pesquisa Participante (PP), algo que gera bastante confusão.

Apresentaremos de forma simples exemplos de aplicação da Pesquisa-Ação, além dar diretrizes e exemplificar Metodologias Participantes para utilização da PA.

Veja o que você vai encontrar neste artigo:

Entendendo a Pesquisa-Ação

A Pesquisa-Ação pode ser considerada uma técnica ou procedimento de pesquisa ao passo que tenha natureza operacional. No entanto, como será demonstrado a seguir, esse tipo de pesquisa possui especificidades que vão muito além dessa mera caracterização técnica metodológica.

Quando se trata de Pesquisa-Ação existem autores que são reconhecidos na área e que devem ser lidos para o entendimento desta perspectiva metodológica: Michel Thiollent e Carlos Rodrigues Brandão (confira as referências ao final do artigo), dentre outros.

Pesquisa-Ação: definições e significados

Compreendendo Pesquisa-Ação

O que é a Pesquisa-Ação?

Como o próprio nome da pesquisa indica, a sua principal característica é a de conter em si a definição de ações/intervenções a serem executadas no interior do próprio processo investigativo com a comunidade ou grupo pesquisado. No entanto, não se trata de qualquer ação ou de ações deliberadamente desvinculadas da teoria e do modo científico de se produzir conhecimento.

As ações derivadas da Pesquisa-Ação devem ser planejadas, organizadas, comunicadas, desenvolvidas e avaliadas por todos os sujeitos envolvidos no processo. Tratam-se de ações articuladas entre pesquisador e pesquisados.

Isto mesmo! A Pesquisa-Ação é um modo de produzir conhecimento de forma coletiva! Nesse modo de desenvolver pesquisa os sujeitos pesquisados tem ampla participação e são sujeitos ativos do início ao final da investigação.

Pesquisa-Ação de Michel Thiollent

Definição de Pesquisa-Ação de Thiollent

Definição de Pesquisa-Ação de Thiollent

Sobre a definição de Pesquisa-Ação, Thiollent (1999, p. 99) ressalta que ela “[…] pode ser concebida como um procedimento de natureza exploratória, com objetivos a serem determinados pelos pesquisadores conjuntamente com os interessados. Os resultados da exploração são úteis para elucidar a ação e para desencadear outras pesquisas.”

A Pesquisa-Ação é multidisciplinar e pode englobar investigações com pesquisadores de diversas disciplinas e áreas do conhecimento, inclusive, no seu próprio desenvolvimento pode ser conduzida por grupos multidisciplinares de pesquisadores, núcleos de estudos pesquisas e extensão multidisciplinares, dentre outros.

Quais as principais características metodológicas da Pesquisa-ação?

A Pesquisa-ação possui várias características metodológicas definidoras de sua forma e utilização no âmbito da pesquisa social. De acordo com Thiollent (1999; 2008) a Pesquisa-Ação (PA):

  1. Visa e possibilita o engajamento e participação da população/grupo em todas as fases da pesquisa, desde o momento de planejamento até a avaliação do projeto;
  2. Proporciona uma ampla e explícita interação entre pesquisadores, pesquisados e demais pessoas implicadas na situação investigada;
  3. Os problemas que serão abordados na pesquisa emergem da própria população pesquisada no contato com os pesquisadores, bem como a prioridade para resolução encaminhadas sob a forma de ações concretas;
  4. O objeto de investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes naturezas encontrados nesta situação;
  5. O objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos, em esclarecer os problemas da situação observada;
  6. Há, durante o processo, um acompanhamento das decisões, das ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação;

Além de todas essas características, Thiollent ressalta que na América Latina a pesquisa-ação é, sobretudo, ligada à visão emancipatória em qualquer local que seja aplicada (meio urbano ou rural) e está estreitamente ligada à Educação Popular e Extensão Popular;

Seu desenvolvimento é intrínseco a uma epistemologia crítica de teoria e de produção do conhecimento, portanto, o pesquisador deve comungar dessas perspectivas para desenvolvê-la. Autores como Karl Marx, Gramsci, Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão são basilares para esta perspectiva metodológica.

Por todas essas características e pela forma que deve ser desenvolvida, a Pesquisa-ação favorece aprendizagem de todos envolvidos à medida que possibilita a troca de conhecimentos entre pesquisadores e pesquisados em uma via de mão dupla, dialógica. Nesse sentido, a pesquisa não se limita a ação restrita de um “ativismo”, mas visa elevar o conhecimento e o nível de consciência das pessoas e grupos envolvidos (THIOLLENT, 2008), principalmente das classes populares ou desfavorecidas socioeconomicamente.

Exemplo de como aplicar a Metodologia da Pesquisa-Ação

Exemplo de como desenvolver a Pesquisa-Ação

Exemplo de como desenvolver a Pesquisa-Ação

A Pesquisa-Ação emerge como fruto de experiências e diálogos coletivos, não existindo um modelo pronto a ser aplicado em qualquer lugar com qualquer população ou grupo. Os procedimentos metodológicos para o desenvolvimento de uma PA devem ser adequados à realidade concreta de cada local/grupo/população.

A Pesquisa-Ação é um modo de pesquisa alternativa e contrária à pesquisa tradicional que já é pré-determinada e rígida, tanto no que diz respeito aos procedimentos e técnicas metodológicas quanto às hipóteses estabelecidas.

Mas tenha bastante atenção!!!

Isso não quer dizer que o pesquisador deva incorrer no erro de abandonar as técnicas de pesquisa ou de que deva realizá-la de modo não científico ou espontâneo. Muitos pesquisadores confundem, erroneamente, essa liberdade metodológica com um suposto combate ao cientificismo, combate a própria ideia de pesquisa científica ou como um modo de se contrapor ao positivismo e neopositivismo dessa forma (NORONHA, 2001).

Fazer Pesquisa-Ação não tem nada a ver com essas posturas!

Práticas espontaneístas devem ser totalmente evitadas para não incorrer no risco de tornar a pesquisa inválida. Noronha (2001, p. 140) destaca que “Uma adequada compreensão do saber popular não deve alimentar as posições antiteóricas e antiintelectuais”.

A Pesquisa-Ação é uma metodologia de pesquisa científica, portanto deve seguir todos rigores metodológicos e científicos. Não há uma “receita pronta” ou exemplo de Pesquisa-Ação rígida para desenvolver esse tipo de pesquisa, mas existem pressupostos teórico-metodológicos que guiam todo processo do início ao fim.

Vamos ver como fica este processo e entender como pode ser aplicada?

Exemplo de diretrizes para aplicação da Metodologia da Pesquisa-Ação

A Pesquisa-Ação é operacionalizada a partir de diretrizes gerais que constituem fases da pesquisa e que devem ser desenvolvidas no decorrer do processo.

Lembrando que as fases a seguir são momentos generalizados de constituição da própria metodologia da Pesquisa-Ação, mas que podem ser alteradas.

Confira estas fases que servem como exemplo de Pesquisa-Ação:

Fase de planejamento coletivo

  1. Escolha do local e público alvo;
  2. Realização de um estudo diagnóstico socioeconômico e político da população/grupo a ser pesquisado;
  3. Compilação dos dados para elaboração do projeto de pesquisa;
  4. Debate dos dados e projeto com os pesquisados para identificação dos problemas que serão tratados como prioritários para pesquisa e possíveis resoluções;
  5. Definição coletiva dos objetivos e metas;
  6. Elaboração de um cronograma com um plano de ações com datas/períodos;

Fase de execução coletiva

  1. Realização das etapas do cronograma;
  2. Desenvolvimento das ações propostas por meio das metodologias mais adequadas;
  3. Avaliação em todas as fases de execução e metas propostas;

Fase de avaliação coletiva

  1. Realização de estratégias coletivas para realização da avaliação final;

Metodologias Participativas da Pesquisa-ação para trabalhos acadêmicos

O papel do pesquisador é principalmente o de ouvinte, mas também é essencial em todo processo para interpretar os dados coletados e agregar o debate com toda bagagem teórica que possui. Assim devem adotar metodologias participativas para produção da pesquisa.

Os pesquisadores devem estabelecer explicações plausíveis e científicas para as situações e dados apresentados de modo que todos os participantes compreendam e possam enriquecer o debate com seus conhecimentos populares. Ou seja, a linguagem a ser utilizada nos momentos de debates e trocas de conhecimentos deve ser uma linguagem de fácil compreensão para os pesquisados, nada de palavras rebuscadas ou posturas soberbas, arrogantes e hierarquizadas.

Como os atores envolvidos na pesquisa devem participar do início ao final da pesquisa, de modo ativo, os pesquisadores devem privilegiar a utilização de metodologias participativas em todas as etapas da investigação, visando possibilitar essa participação e engajamento da população investigada (exemplos de metodologias participativas são rodas de conversa, tempestade de ideias, consulta popular sob diversas formas, dentre várias outras disponíveis na literatura).

No decorrer da investigação a Pesquisa-Ação pode requerer a utilização de instrumentos/técnicas de pesquisa tradicionais que possibilitem uma realização de coleta de dados mais ampla, principalmente na fase diagnóstica da pesquisa ou quando a coleta de dados precisar ser realizada em massa com a população pesquisada.

configuração metodológica da Pesquisa-Ação é única em cada lugar e com cada grupo de participantes, depende dos objetivos de cada investigação e do contexto no qual é aplicada.

Metodologias Participativas da Pesquisa-ação para trabalhos acadêmicos

Quais as formas de aplicar a Pesquisa-Ação?

Condições e Aplicações da Pesquisa-Ação 

Os participantes ou grupos pesquisados são os mais diversos, mas pode ser aplicada em três distintas condições/situações:

  1. A Pesquisa-ação pode ser requerida (encomendada) por grupos articulados e organizados sob a forma de associações, movimentos sociais e outros. Nesses casos os pesquisadores assumem os objetivos já definidos pelo grupo e fazem todo papel de condução e orientações da investigação em função dos meios disponíveis;
  2. A pesquisa pode ser realizada no interior de organizações como empresas, escolas, universidades, dentre outras. Sendo nesse caso encomendada ou de interesse do pesquisador;
  3. A PA pode se dar em meio aberto como bairros populares, comunidades rurais, indígenas, quilombolas ou outras. Nesse caso, na maioria das vezes a maior iniciativa é dos pesquisadores que tem interesses investigativos em localidades e sujeitos específicos.

Thiollent esclarece que, “Nos campos da educação, comunicação e organização, a PA exige dos pesquisadores uma grande dedicação e o simultâneo domínio das questões teóricas e práticas da investigação. A PA é o contrário de uma ‘receita’ ou de uma ‘panacéia’. É sobretudo uma orientação de pesquisa cuja aplicação, experimentação ou intervenção não exclui outros recursos técnicos mais convencionais que permanecem necessários em determinadas circunstâncias […]” (1999, p. 102-103).

Dessa forma a Pesquisa-ação pode se dar em qualquer espaço e com diversos atores. Pode servir para realizar elaboração de planejamentos educacionais, elaboração de currículos em consonância com o bairro, município e especificidades de diferentes grupos (tanto em meio urbano como rural), pode ser desenvolvida para realizar consultas populares e elaboração de diretrizes para políticas públicas em diferentes setores como saúde, educação, lazer, transporte, ou ainda, para realizar projetos de pesquisa e extensão com públicos alvo específicos.

Qual a diferença entre Pesquisa-Ação e Pesquisa Participante?

Entenda as principais diferenças entre Pesquisa-Ação e Pesquisa Participante

Qual a diferença entre Pesquisa-Ação e Pesquisa Participante? 

A Pesquisa-Ação e a Pesquisa Participante são tratadas, na maioria das vezes, como sinônimas. No entanto, não são a mesma coisa! Fique atento às diferenças!

Thiollent (1999) esclarece as questões metodológicas acerca das diferenças entre Pesquisa-ação (PA) e Pesquisa Participante (PP) da seguinte maneira: a Pesquisa-Ação é uma forma de Pesquisa Participante, mas, nem todas Pesquisas Participantes são consideradas Pesquisa-Ação.

O autor ressalta que a Pesquisa Participante centra seus esforços e preocupações com a relação do investigador no interior da situação investigada, problematizando essa relação até mesmo para estabelecer vínculos de confiança e estabelecer formas favoráveis à captação das informações. No entanto, não chegaram a se debruçar sobre a questão da relação entre investigador e ação no interior da situação considerada. Essa preocupação ficou a cargo da concepção da Pesquisa-Ação.

Portanto, a Pesquisa-Ação não é apenas uma Pesquisa Participante e sim, uma forma de pesquisa centrada na questão do agir.

A concepção da Pesquisa Participante está por vezes associada à técnica de observação participante e imersão do pesquisador no universo pesquisado, principalmente a partir de pesquisas com cunho antropológico ou etnográfico. De acordo com Thiollent “Trata-se de estabelecer uma adequada participação dos pesquisadores dentro dos grupos observados de modo a reduzir a estranheza recíproca” (1999, p. 83).

  • No caso da Pesquisa Participante a preocupação centra-se mais no pesquisador do que no pesquisado. No que tange a ação, os pesquisados não são mobilizados em prol de ações para resolução de situações e problemas.
  • Já na Pesquisa-Ação a preocupação é voltada prioritariamente para os pesquisados e supõe que os interessados participem de uma determinada ação do seu início ao fim, uma ação planejada com intervenção para modificação ou modificações no interior da situação pesquisada. Requer uma forma de observação participante, mas que esteja associada à ação cultural, educacional, organizacional, política ou outra.

Considerando todas as especificidades desses dois tipos de pesquisa e os pressupostos teóricos críticos que as norteiam, Thiollent ressalta que “A Pesquisa-Ação e também certas formas de Pesquisa Participante seriam um meio de melhor adequar a pesquisa aos temas e problemas encontráveis no seio do povo. Além disso, graças aos canais de comunicação estabelecidos pela própria pesquisa, seria possível divulgar imediatamente os resultados considerados utilizáveis dentro do meio social que os gerou.” (1999, p. 87).

Percebe-se o quanto é ampla a utilização da Pesquisa-Ação e da Pesquisa Participante e o quanto esses tipos de pesquisas podem ser ricas em aprendizagens e resultados para todos envolvidos. Basta o pesquisador saber conduzi-las de modo apropriado e não perder de vista a cientificidade do processo.

Espera-se que tenha contribuído para um melhor entendimento sobre esses tipos de pesquisas e para sua utilização! Não deixe de compartilhar abaixo. Você pode aprender ainda mais nos nossos outros artigos.

Referências

NORONHA, Olinda M. Pesquisa participante: repondo questões teórico-metodológicas. In: FAZENDA, Ivani (org.). Metodologia da pesquisa educacional. São Paulo: Cortez, 2001, p.137-143.
THIOLLENT, Michel. Notas para o debate sobre pesquisa-ação. In: BRANDÂO, Carlos Rodrigues (Org.). Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 82-103.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa ação. São Paulo: Cortez, 2008.

Leia também: