Conheça nesse artigo os pontos principais da Fenomenologia e o Método Fenomenológico usado em pesquisa. Entenda o que é a Fenomenologia criada pelo alemão Edmund Husserl, o objetivo do estudo e também quais as críticas endereçadas a essa vertente metodológica.

Também citaremos como esta abordagem fonomenológica se encaixa nas pesquisas acadêmicas, as críticas a redução fenomenológica entre outras fragilidades do método. Trazemos ainda exemplos da aplicabilidade do método na pesquisa científica. Fique por dentro!

Veja o que você vai encontrar neste artigo:

Fenomenologia: conceitos, características e origem

Entenda o que é Fenomenologia e sua origem.

Entenda a Fenomenologia e sua origem

No âmbito do pensamento filosófico a fenomenologia se encaixa como uma tendência do idealismo filosófico, se situando no interior deste como idealismo subjetivo.

A fenomenologia enquanto método e modo de conhecimento do mundo teve forte influência na filosofia contemporânea, principalmente, com a vertente voltada ao estudo do existencialismo, que emerge após a segunda guerra mundial.

Mas, o que é fenomenologia?

Se você quer saber o que é fonomenologia e já ouviu falar ou já estudou pensadores como Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Van Breda, Marcel, Jasper e Kierkegard, você já teve contato com autores que beberam da fonte da fenomenologia, que tem como precursor Edmund Husserl.

O que realmente importa para a fenomenologia é o homem em sua existência e sua forma de experienciar o mundo vivido, o homem como um ser intimamente pessoal.

Sobre isso, Gil (2008) esclarece que, para a fenomenologia, o objeto de conhecimento não é o sujeito nem o mundo e sim, o mundo como é vivido pelo sujeito. Para o método fenomenológico não há preocupação ou consideração com a gênese ou explicações acerca do fenômeno pesquisado, pois preocupa-se apenas em descrever, diretamente, a experiência em sua essência, tal como se apresenta à consciência.

Método fenomenológico de pesquisa científica

Método Fenomenológico

Método Fenomenológico e a pesquisa

As pesquisas científicas centradas na fenomenologia emergem do anseio em se contrapor às pesquisas positivistas no que diz respeito à rigidez metodológica e processos de pesquisa altamente estruturados. Pode-se dizer que o enfoque fenomenológico é o extremo oposto do positivista nesse quesito.

Por isso mesmo, no método fenomenológico de pesquisa não existe um planejamento rígido e a utilização de técnicas de pesquisa estruturadas para coleta de dados, porque privilegia, demasiadamente, a dimensão subjetiva em contraposição à objetiva. Essa falta de estruturação e exacerbação da subjetividade colocou, em vários momentos, em xeque os resultados obtidos e a validade científica desses resultados.

As pesquisas baseadas nesse método começaram ganhar força e emergiram no final da década de 1970, justamente com a derrocada do positivismo, aliado a um momento de extrema abertura política que propiciou grandes avanços intelectuais no âmbito acadêmico.

Compreendendo o pensamento de Edmund Husserl

Compreendendo o pensamento de Edmund Husserl

Fenomenologia de Husserl

Husserl pretendia que seu método também se constituísse como ciência. Para isso, teve que imprimir à fenomenologia um conceito geral que possibilitasse sua utilização.

Destaca assim, que as pesquisas com base na fenomenologia são investigações universais de essências para objetividades universais, denominando a fenomenologia de doutrina universal das essências.

Para o pensador, as pesquisas de cunho fenomenológico partem da vivência individual e singular para se tornarem vivências universalizadas.

Desse modo, a fenomenologia se caracteriza, principalmente, por estudar os fenômenos em sua essência pura, seja a essência da percepção, da consciência ou outras. A esse respeito Triviños (1987, p. 43) destaca:

Mas também a fenomenologia é uma filosofia que substitui as essências na existência e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra forma senão a partir de sua ‘faticidade’. […] É o ensaio de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é […].

O que ganha destaque na análise fenomenológica é, então, a experiência vivida e olhar do sujeito sobre o mundo, sua percepção. Portanto, todo conhecimento produzido é fruto dessa experiência do sujeito (na sua forma individual) sobre o mundo vivido.

Mas é importante relembrar e ter sempre em mente que esse “conhecimento” produzido pela fenomenologia não passa da descrição dessa experiência, pois não contempla sua origem e nem mesmo explicações ou análises. Nessa perspectiva, as vivências são os primeiros dados absolutos para esse método.

Gil (2008) ressalta que a fenomenologia não se preocupa com o desconhecido que permeia o fenômeno, ou que está por trás do fenômeno, só visa o dado sem a pretensão de decidir se esse dado é uma realidade ou uma aparência. Isso porque Husserl entende que, de uma forma ou de outra o dado (“a coisa”) está aí.

Importante destacar também o que se entende por “coisa” no interior do método. “Coisa” é simplesmente o dado, o fenômeno, ou tudo aquilo que é visto diante a consciência.

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As regras e etapas do método fenomenológico de Husserl

Daí emerge a primeira regra fundamental do método fenomenológico: “avançar para as próprias coisas”, levando em consideração apenas o que está presente na consciência dos sujeitos.

Ainda, para concretizar seu método, Husserl baseou-se no princípio de que a filosofia deveria estabelecer as categorias puras do pensamento científico. Em busca desse preceito o filósofo centra-se no que denominou de “redução fenomenológica”, que apresentava a fenomenologia não só como método, mas como um “modo de ver o dado” (TRIVIÑOS, 1987).

Essa prerrogativa pode ser denominada como a segunda regra fundamental do método fenomenológico: a redução fenomenológica.

Mas o que seria isso?

A redução é um processo que o pesquisador deve empreender para chegar à essência pura do fenômeno. Para isso, deve questionar o conhecimento a fim de “suspender” tudo que possa interferir na mudança do fenômeno. Desse modo, ao realizar a pesquisa, o pesquisador deveria isentar os dados de toda e qualquer influência de elementos pessoais e culturais, obtendo assim um conhecimento sobre a essência dos fenômenos.

Por isso mesmo, essa “redução” é bastante criticada, pois, trata de suprimir a historicidade, as crenças, os valores culturais dos dados, para que se possa realizar uma descrição pura dos mesmos, ou, da essência dos mesmos. É o que se entende no interior do método fenomenológico por colocar essas crenças e valores “entre parênteses”.

A intencionalidade do método fenomenológico

Importante destacar ainda, para que se tenha uma melhor compreensão do método fenomenológico, o que Husserl chama de intencionalidade. Esse conceito foi erigido baseando-se nas obras e pensamentos de De Franz Brentano (Husserl também buscou inspiração em outros pensadores como Descartes, Platão e Leibnitiz).

O conceito de intencionalidade remete à psiqué que, segundo Brentano, sempre é intencional e está dirigida para algo. A intencionalidade é algo intrínseco e fundamental para a fenomenologia, pois, para esse método, não existe objeto algum sem sujeito. (TRIVIÑOS, 1987).

Metodologia Fenomenológica

Abordagem Fenomenológica e suas fragilidades

No bojo do idealismo filosófico, várias vertentes enfrentam problemas fundamentais no que diz respeito a validade do conhecimento produzido. No caso da abordagem fenomenológica como método não é diferente.

Como não existe objeto sem sujeito, o conhecimento produzido pela abordagem fenomenologia é válido apenas para o sujeito, não necessariamente é considerado verdade objetiva válida para todos (função que todo método enquanto sistema filosófico busca na produção do conhecimento científico). Isso porque, se retirar o sujeito da pesquisa não restaria nada, nenhum conhecimento, já que ele foi produzido a partir de um sujeito singular.

Redução fenomenológica

Mas para Husserl a superação dessa problemática se encontra no princípio da redução fenomenológica, que proporciona que se chegue à essência do fenômeno como dado e, as essências, de acordo com ele, se determinam por sua universalidade, que seria válida para todos os sujeitos.

Husserl menciona: “O que eu conheço, o que eu vivencio, é vivência para todos, porque foi reduzida a sua pureza íntima, a sua realidade absoluta. Assim, o mundo que conheço – diz Husserl – é o mundo que pode ser conhecido por todos […]” (TRIVIÑOS, 1987, p. 46).

Críticas ao método fenomenológico de Husserl

Conheça as críticas endereçadas ao método fenomenológico:

  • A falta de importância/relevância da busca pela historicidade dos fenômenos. Essa falta de historicidade faz com que a fenomenologia seja duramente criticada, assim como foi o positivismo, visto que visa descrever a realidade como ela se apresenta, apenas descrevendo e não explicando.
  • A “redução fenomenológica”. Isso porque no processo de redução que ocorre na busca pela essência o fenômeno sofre um isolamento total, eliminando valores pessoais e culturais;
  • A exaltação dos fenômenos que se apresentam apenas intencionalmente à consciência. Esse processo faz com que o pesquisador deixe de lado os processos despercebidos pela consciência ou não intencionais.

Para ter uma noção sobre os tipos de pesquisas desenvolvidas pela fenomenologia, não serão identificadas, por exemplo, qualquer pesquisa com abordagem sobre as questões que envolvem conflitos entre classes sociais ou que envolvam mudanças estruturais da sociedade.

Por outro lado, identificam-se pesquisas advindas do interacionismo, pesquisas de cunho antropológico, como estudos de tribos com seus valores e costumes, dentre outros.

No âmbito das pesquisas educacionais, por exemplo, não se encontram pesquisas que analisem a ideologia presente nos currículos ou que tratem do “currículo oculto”, serão identificados estudos de sala de aula (bastantes comuns na fenomenologia) apartados dos elementos históricos e sociais, evidenciando o isolamento do estudo do fenômeno (TRIVIÑOS, 1987).

Sobre a pesquisa fenomenológica no âmbito educacional, Triviños (1987, p. 48-49) relata que os estudos de sala de aula permitiram o avanço de debates sobre pressupostos considerados como naturais, óbvios e pondera:

Mas o esquecimento do histórico na interpretação dos fenômenos da educação, sua omissão do estudo da ideologia, dos conflitos sociais de classes, da estrutura econômica, das mudanças fundamentais, sua exaltação da consciência etc. autorizam a pensar um enfoque teórico dessa natureza pouco pode alcançar de proveitoso quando se está visando os graves problemas de sobrevivência dos habitantes dos países de Terceiro Mundo.

O autor ressalta ainda que o problema da historicidade e a tendência conservadora do método fenomenológico tem sido superado por pesquisadores que empregam elementos dialéticos em suas análises.

Como usar a abordagem fenomenológica nas pesquisas científicas?

As pesquisas de cunho fenomenológico são opostas aquelas de cunho positivista. Se o positivismo prega uma rigidez metodológica e não analisa os fenômenos à luz da subjetividade e da metafísica, a fenomenologia enfatiza, demasiadamente, essas dimensões.

As pesquisas científicas que utilizam o método fenomenológico muitas vezes são facilmente identificadas no âmbito da antropologia, da arte, da psicologia e várias outras áreas de estudo das pesquisas qualitativas.

São pesquisas acadêmicas que buscam estudar as experiências e vivências dos sujeitos, que tem cunho existencialista, bem como buscam estudar modos de vida, religiões e ritos são bastante comuns na fenomenologia.

Importante destacar que os resultados das pesquisas fenomenológicas dificilmente poderiam ser quantificados ou tratados estatisticamente, pois tratam de demonstrar os diferentes estados e formas da consciência, da experiência, da essência.

Exemplos de Método Fenomenológico nas pesquisas científicas

Alguns exemplos de pesquisas que utilizam o método fenomenológico poderiam ser citados para um melhor entendimento, tais como:

  • pesquisas que estudem as experiências de pacientes com qualquer tipo de doença na área da saúde;
  • estudos sobre os aspectos subjetivos do corpo, do esporte, do desejo, da autoestima;
  • história de vida de grupos ou individuais;
  • estudos que privilegiem a “vocação” da educação e da docência;
  • estudos que analisem aspectos subjetivos como desenvolvimento cognitivo ou das percepções das crianças e adolescentes sobre si mesmos ou de outros aspectos;

Enfim, são várias as pesquisas que seguem essa perspectiva.

Espera-se que com tudo que foi tratado nesse artigo, você enquanto pesquisador, possa ter maior clareza do que consiste o trabalho com a pesquisa fenomenológica, o que é fenomenologia e o método fenomenológico de Husserl e que tenha compreendido mais um pouco sobre os diferentes métodos de pesquisa!

REFERÊNCIAS

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008.

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

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